Diário das Marés










08/05/2008 16:04

Caos apenas flor

Uma flor nasceu em meu jardim. Involuntária, inconsciente. Quando acordei, cuidei que ela estava lá, desatenta, brotando no vento aroma. Ao vê-la, me inquietei e imediatamente chamei minha mulher:

— Veja. Uma flor nasceu no jardim.

— E agora?, respondeu.

— Agora eu não sei, disse-lhe, o rosto tenso.

— Mas como isso foi acontecer?

Depois de um breve silêncio, ela emendou:

— Será que alguém mais viu?

Essa pergunta me fez pensar no pior; será que algum vizinho, transeunte ou ladrão, alguém mais a tinha visto? Enquanto pensava nisso, já ia imaginando os comentários: “Você viu? Tem uma flor no jardim dos Queiroz. Que absurdo!”. Decerto todos nos olhariam de soslaio — nós, culpados e réus por ter permitido tamanha aberração. Não, não poderia suportar; era preciso me livrar daquilo, matá-la, arrancar suas raízes à seiva da terra antes que, mais tarde, seu pólen transformasse uma em dez. E aí, com toda certeza, eu não escaparia do apedrejamento. Entrei para pegar minha arma, que trago escondido na gaveta da parte superior do armário, livre do alcance de todos.

Cheguei de frente à flor. Ela nada fazia, apenas dançava nas mãos do vento e quase beijava os meus pés. Senti-me fraco. Como poderia matá-la assim, sem lhe dar uma explicação? Eu não poderia ser cruel a esse ponto. Em meio àquele jardim, eu olhava suas cores se dissipando pelo ar e quase me comovi, não fossem as pedras calejando meus pés, todas elas postas lá para lembrar o quanto falamos, o quanto ouvimos e agimos e o quanto erramos, porque errar, errar e mais errar é humano, mas deixar uma flor brotar no meio das pedras, é demais.

Engatilhei (como disse, quase me comovi) e apontei para ela. Minha mulher tapou os olhos, evitando ver a deplorável cena. Eu ainda procurava uma explicação, mas consegui dizer pouco:

— Desculpe, flor, mas dinheiro eu não vou obter com você. Afinal, para que porra serve flor? Eu só comercializo pedras; pedras para se amar em cima delas, para jogar pelas janelas, para atirar nos que errarem, porque errar é humano. Não comercializo flores.

Dei uma última olhada ao redor, na esperança de ninguém tê-la visto. Atirei.

O eco seco da bala-pedra não chamou a atenção. O barulho de um tiro já está embutido na vida cotidiana. A flor nem aí. Atirei novamente. Novamente nada. Mais três tiros. Nem se deu ao trabalho de parar de baloiçar ao vento.

Os tiros chamaram a atenção. Um, vá lá, passa despercebido. Mas cinco era sinônimo de que alguém morrera, e logo os curiosos estariam à minha porta, como de fato chegaram logo depois, aos poucos, um por um, olhos atentos e acusadores.

Tentamos dizer algo, mas era inútil. Enfatizei-lhes nossos esforços para matá-la, mas, inexplicavelmente, ela permanecera ali. “Ela não morreu”, eu disse.

Alguém no meio da multidão gritou: “O punk não morreu!”, seguidos de brados de “Elvis não morreu!”, “Assassinos!”, “Liberem a maconha!”, “Um auxílio, pelo amor de Deus!”. O tumulto se formou; protestos variados, gritos de ordem, frases de efeito. Todos estavam insatisfeitos com algo. E logo se formou uma passeata pela paz, pela guerra, pelas pedras, pelas flores negadas à vida, pelos filhos assassinados.

A minha flor permaneceu lá, lisérgica, embaixo da janela. Nunca pude nada contra seu aroma contagiante, que sempre me traz lembranças de algo que ainda não conheço.

enviada por Malthus






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