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21/08/2008 10:26
Número Azul
Aurélio deitou por volta das 10:30, pouco depois de tomar seu café-da-manhã: cuscuz, ovo, pão francês e café preto. A mulher, como de hábito, havia preparado o desjejum enquanto ele se lavava e servia com dedicada introspecção. Agora o esperava para almoçar.
As crianças estavam na escola quando Aurélio deitou, a mão ainda segurando o bilhete do jogo do bicho havia sonhado com coelho esta noite. Quando não tinha o que fazer, sonhava. E sonhava sempre com animais, não raro garantindo a feira da casa com essas mensagens oníricas.
A mulher reclamava, chamava-o vagabundo nas horas mais exaltadas. Passava na cara que quem sustentava a casa era ela, trabalhando em residência de madame. Ele nem ligava; fazer o quê: não havia trabalho suficiente no mundo. Dizia que vivia da fé: fé no jogo, no amor, no futuro.
No dia em que se deitou, viu o céu: era um céu meio côncavo, cheio de passarinhos plebeus, alguns até graciosos. Quis contá-los quem sabe era mais uma dica pro jogo de amanhã.
A mulher o chamava para o almoço:
Vem, Lelo, que a comida tá quase pronta.
Aurélio nem ouvia: estava tão entretido com o firmamento, era tudo tão azul, não havia espaço para fome. Os sonhos são azuis, números azuis, Qual bicho é azul?, perguntava-se.
Nem tirou os sapatos, foi logo se abufelando no meio de tudo, estendendo os braços, libertino que só ele, banhado pelo verde das árvores.
Lelo, vem logo, a panela tá no fogo, já vou desligar.
Ele corria pela rua, atrás dos bichos, eterna criança que nunca foi. Quando a mulher o viu deitado, quase enlouqueceu:
Levanta logo, Aurélio. Daqui a pouco os meninos chegam da escola e tu é quem vai ficar com eles, que eu tenho faxina.
Nem aí. Iria era tomar uma na casa do compadre Toín, lá no alto, dançar um sambão embriagado de cerveja e apalpar as pernas ofertosas das donas sem dono. Foi lá que Aurélio arranjou esta dívida: o número azul. Apostou que era assim. Os que não acreditaram, logo se indispuseram com ele: Cabra afoito esse tal de Aurélio; chegou ontem no mundo e já quer levar na esperteza.
A carta, quando deitada, era um coringa, e tudo podia. No final do jogo, cinqüenta reais na mão e duzentos no prego. O branquela de cavanhaque nem queria saber:
Sei onde tu mora, malandro.
E lá estava Aurélio, dono da rua, nem ônibus passava. Aos olhares, respondia com o desprezo do silêncio, não movendo um músculo para satisfazer a curiosidade dos abutres.
Vem logo, homem de Deus, que eu preciso me arrumar, gritava enlouquecida a mulher. Já tá na mesa, tu não vem, não?
E ele não atravessava a rua. Ficou do outro lado, na contramão, rei da zona norte, rio que chega ao mar. Dez anos depois, haveria de estar ali, enxergado apenas pelos seus.
Lelo, vem cuidar dos meninos, Lelo. Eles tão querendo jogar bola, videogame. O Marquinhos brigou na escola hoje, vem dar um corretivo nele.
Preferiu ficar ali, mergulhado no azul da manhã, cuidando de seus passarinhos e apostando no coelho, 38 duas vezes. Na cabeça e no pescoço.
enviada por Malthus
15/08/2008 11:42
E-mails fofinhos = respostas ultrajantes
No mercy for fools!
E-mail fofinho
Resposta ultrajante
enviada por Malthus
07/08/2008 16:01
Sexta-feira
Foto: Malthus de Queiroz
Eu sempre soube que crônicas são parte linguagem, parte substância dessas que nos abordam pelas ruas quando menos esperamos. Andar é necessariamente arriscar-se a se deparar com uma crônica, palavras latentes esperando reinvenção. Nada é mais casual que esse gênero da escrita.
Sempre gostei de andar por aí, encontrar os amigos na sexta-feira para uma cerveja despretensiosa num boteco qualquer da Boa Vista, renegando, nas intermitências do cotidiano, a substância comum do dia-a-dia, massa uniforme feita da rotina viciosa dos números. Dispostos à mesa, cada um a seu modo, nessas ocasiões podemos fingir não fazer parte da normalidade, que, em sua essência, é tão absurda quanto os mais delirantes devaneios hollywoodianos, heróis longínquos que se propõem a ser felizes no apagar das luzes, a vida se resumindo a créditos finais. Para quem são as flores no túmulo senão para os vivos?
Por isso gosto das sextas. É como se o silêncio de cada gole nos fizesse descobrir, de forma morosa e com certa dose de surpresa, uma poesia banal em cada coisa instituída: o vôo ridículo dos que correm lá fora, a vontade sôfrega da chuva em molhar calçadas, a mão estendida que nada fala. Os olhos cerrados, coloridos pelo verde dos quintais, enxergam a rua mais longe do que ela é, do mesmo jeito que estes que bebem ao meu lado não sentem apenas sede. Bebem porque sentem vontade de falar, sorrir, calar, enlouquecer pacificamente, protestar, destruir e, principalmente, reconstruir, sabendo que uma chance perdida de felicidade é mais amarga que a própria tristeza. Assim cada um de nós, pequenos mundos, comporta algo de fim e recomeço, como em um romance, em que o ritual da leitura encaixa as partes.
A substância e a linguagem desse dia da semana convergem para a inescapável vontade boêmia de estar a esmo, habitando bares e madrugadas. Assim deve ser a crônica de uma sexta-feira, uma literatura involuntária despreocupada com amanheceres poéticos ou gritos revolucionários, simplesmente porque também há beleza na fealdade acumulada dos dias.
enviada por Malthus
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